O relatório Global Hydrogen Review 2026, publicado pela Agência Internacional de Energia (IEA) em junho, muda o tom da conversa sobre hidrogênio. Nas edições anteriores, o destaque recaía sobre metas de descarbonização e curvas de custo. Em 2026, o centro do debate passou a ser outro: a fragilidade das cadeias globais que sustentam fertilizantes, metanol e combustíveis derivados de hidrogênio, e o papel que fontes de baixa emissão podem desempenhar para reduzir essa exposição.
O gatilho foi o conflito no Oriente Médio. A região concentra cerca de um sexto da produção mundial de hidrogênio, mais de 10% da capacidade global de refino e da produção de amônia e ureia, e perto de 17% da produção de metanol. Quando parte dessa infraestrutura para, o choque não fica contido geograficamente. Segundo a IEA, a região responde por mais de um quarto do comércio global de amônia, quase 40% do comércio de ureia e praticamente metade do comércio de metanol.
O fechamento do Estreito de Hormuz e seus efeitos em cascata
O fechamento do Estreito de Hormuz interrompeu o fluxo de amônia, ureia e enxofre, insumos que sustentam a produção de fertilizantes em todo o planeta. O resultado apareceu rápido nos preços: entre janeiro e maio de 2026, o valor da ureia dobrou no mercado internacional. Refinarias e complexos petroquímicos fora do Golfo Pérsico também foram atingidos, o que ampliou a escassez para produtos refinados e químicos em geral.
A dependência de gás natural importado do Oriente Médio aprofunda o problema em regiões específicas. Cerca de um quarto da produção de amônia em Bangladesh, Índia e Paquistão utiliza gás importado da região, o que tornou esses mercados particularmente vulneráveis às interrupções.
Segurança alimentar sob pressão
O ponto mais sensível do relatório é a conexão entre hidrogênio e segurança alimentar. Fertilizantes nitrogenados dependem diretamente de amônia, e amônia depende de hidrogênio. Quando a cadeia trava, o efeito chega à lavoura.
A IEA lista países particularmente expostos por dependerem quase inteiramente de importação:
- Marrocos, que supre toda sua demanda de amônia com importações, 40% delas vindas do Oriente Médio.
- Brasil, Austrália, África do Sul e Tailândia, que importam entre 40% e 85% da ureia que consomem, também com o Oriente Médio como origem relevante.
No caso brasileiro, a exposição é conhecida do setor. O país historicamente importa quase 80% dos fertilizantes fosfatados, mais de 80% dos nitrogenados e mais de 90% dos potássicos. Praticamente toda a ureia consumida internamente vem de fora. A Petrobras retomou em 2026 a operação plena de plantas de amônia e ureia em Sergipe e na Bahia, além da unidade ANSA no Paraná, dentro de um plano de investimento de US$ 1 bilhão até 2030 voltado a suprir cerca de 20% da demanda doméstica. O Plano Nacional de Fertilizantes tem meta declarada de reduzir a dependência externa de 85% para 50% até 2050, um horizonte longo diante da urgência que o cenário atual impõe.
Diversificação como estratégia de segurança energética
Diante desse quadro, a IEA posiciona o hidrogênio de baixa emissão como ferramenta de diversificação, não como solução imediata. A lógica é direta: usar eletrólise em vez de gás ou carvão para produzir fertilizantes, metanol e combustíveis de transporte marítimo e aviação amplia o número de fontes de energia disponíveis e reduz a dependência de um conjunto restrito de fornecedores.
Essa diversificação atua em duas frentes complementares:
- Diversificação de origem, ao substituir insumos fósseis importados por produção doméstica baseada em eletrólise.
- Diversificação de rota, ao ampliar o número de fornecedores globais de hidrogênio e derivados, hoje concentrados em poucas regiões.
O próprio relatório, no entanto, é cauteloso quanto ao ritmo. A produção mundial de hidrogênio de baixa emissão soma hoje menos de 1 milhão de toneladas por ano, ante uma demanda global de hidrogênio que ultrapassou 100 milhões de toneladas em 2025. O volume de projetos anunciados com chance real de entrar em operação até 2030 encolheu para cerca de 6 milhões de toneladas, resultado de atrasos em decisões finais de investimento. Dois terços dessa produção potencial que corre risco de não sair do papel estão concentrados na Europa, América do Norte e América Latina.
O que isso significa para quem acompanha o setor
Para empresas e governos que planejam a próxima década do hidrogênio, o relatório de 2026 deixa três sinais práticos:
- Diversificação deixou de ser um argumento apenas ambiental e passou a integrar diretamente a agenda de segurança energética e alimentar.
- A janela de decisão é curta: a IEA estima que boa parte dos projetos hoje anunciados perderá a chance de operar até 2030 se as decisões finais de investimento não forem tomadas até o início de 2027.
- Setores com uso já estabelecido de hidrogênio, como refino, produção de amônia e metanol, são os pontos de entrada mais rápidos para o hidrogênio de baixa emissão, porque já contam com infraestrutura, demanda conhecida e cadeias de fornecimento estruturadas.
A crise no Oriente Médio funcionou como teste de estresse para um sistema que já era conhecido por sua concentração geográfica. O relatório da IEA confirma o diagnóstico, mas também aponta um caminho: ampliar a base de produção de hidrogênio e derivados fora das regiões hoje mais expostas é, ao mesmo tempo, estratégia de segurança energética, alimentar e de resiliência industrial.
Referências
- IEA (2026), Global Hydrogen Review 2026, International Energy Agency, Paris.
- S&P Global Commodity Insights, cobertura sobre retomada de plantas de fertilizantes da Petrobras (janeiro de 2026).
- S&P Global Commodity Insights, dados sobre importação de fertilizantes no Brasil (2025).
