O mundo está redesenhando sua matriz energética, e o hidrogênio verde, o e-metanol e o combustível sustentável de aviação (SAF) ocupam o centro dessa transição. Para o Brasil, a combinação de energia renovável abundante, terra disponível e posição logística privilegiada cria uma janela de oportunidade rara: tornar-se fornecedor global desses insumos antes que outros países consolidem sua liderança.
Os números já refletem esse movimento. Segundo levantamentos do setor, cerca de R$ 454 bilhões em investimentos foram anunciados para projetos de hidrogênio verde no país, e sete iniciativas de escala industrial, somando R$ 63 bilhões, devem chegar à decisão final de investimento (FID) ainda em 2026.
O hub do Pecém e a corrida pela amônia verde
O Complexo Industrial e Portuário do Pecém, no Ceará, se consolidou como o principal polo brasileiro de hidrogênio verde. A Fortescue lidera o grupo, com um investimento estimado entre R$ 18 e R$ 20 bilhões para produzir 170 mil toneladas de hidrogênio por ano a partir de 2029, convertidas majoritariamente em amônia verde para exportação. Ao seu lado, Qair, Casa dos Ventos, FRV e Voltalia somam projetos adicionais voltados ao mesmo modelo: eletrólise a partir de energia eólica e solar, seguida de conversão em amônia para viabilizar o transporte marítimo em larga escala.
Fora do litoral cearense, a Atlas Agro planeja investir R$ 6 bilhões em Uberaba (MG), com 300 MW de capacidade de eletrólise para produzir 530 mil toneladas anuais de fertilizantes nitrogenados, substituindo importações e reduzindo a dependência externa do agronegócio brasileiro.
A meta de competitividade é ambiciosa: alcançar um custo de produção de US$ 1,47 por quilo de hidrogênio até 2030, patamar que colocaria o Brasil entre os poucos países capazes de exportar o insumo a preços competitivos globalmente.
E-metanol: a primeira fábrica nacional
Enquanto o hidrogênio avança em escala industrial, o e-metanol dá seus primeiros passos comerciais no país. A European Energy, por meio de sua marca GoVerde, anunciou a primeira fábrica de e-metanol do Brasil, instalada no Complexo de Suape (PE), com investimento de R$ 2 bilhões. A planta terá capacidade inicial de 300 toneladas por dia entre 2027 e 2028, com plano de expansão escalonado até 900 toneladas por dia em 2032.
O produto é voltado principalmente à exportação, atendendo à demanda crescente do transporte marítimo e da aviação na Europa e na América do Norte, setores que buscam alternativas de baixo carbono para cumprir metas regulatórias cada vez mais rígidas.
SAF: regulação em movimento
No Brasil, o combustível sustentável de aviação avança sob o ProBioQAV, programa criado pela Lei do Combustível do Futuro. O decreto que regulamenta as regras específicas do setor está em fase final de tramitação, com expectativa de que, a partir de 2027, as companhias aéreas precisem reduzir em 1% suas emissões de gases de efeito estufa por meio do uso de SAF.
Hoje, a Petrobras concentra 92% da oferta nacional de SAF, produzido na Refinaria Duque de Caxias (Reduc), no Rio de Janeiro, com planos de expansão para outras unidades. A Acelen, por sua vez, desenvolve uma rota alternativa a partir da macaúba, planta nativa do cerrado brasileiro, o que amplia a base de matérias-primas disponíveis para produção local.
No cenário internacional, a regulação europeia ReFuelEU Aviation já exige um mínimo de 2% de SAF nos voos a partir da União Europeia em 2025, subindo progressivamente até 70% em 2050, com uma submeta específica para e-fuels sintéticos. Alemanha, Japão e Índia seguem caminho semelhante, cada um com seus próprios mandatos de mistura. Ainda assim, o SAF representa apenas 0,53% do consumo global de querosene de aviação, o que evidencia o tamanho do mercado a ser conquistado.
Os desafios que ainda travam a escala
Apesar do volume de anúncios, a transformação de projetos em produção efetiva enfrenta obstáculos concretos:
- Infraestrutura portuária e de transmissão elétrica ainda insuficiente para atender a demanda simultânea de múltiplos projetos de grande porte.
- Ausência de um marco regulatório definitivo para hidrogênio de baixo carbono, o que gera incerteza para financiadores e investidores.
- Custo do e-querosene sintético hoje estimado em até 13 vezes o valor do querosene fóssil, segundo dados da Argus de novembro de 2025.
- Necessidade de contratos de longo prazo (offtake agreements) que garantam previsibilidade de demanda para viabilizar o financiamento das plantas.
O caminho à frente
Para transformar potencial em liderança efetiva, especialistas do setor apontam três frentes prioritárias:
- Definição rápida do marco regulatório nacional para hidrogênio de baixo carbono, com regras claras sobre certificação e rastreabilidade.
- Expansão coordenada da infraestrutura de transmissão e portos, evitando que a energia renovável disponível não encontre escoamento.
- Articulação comercial internacional para garantir contratos de compra que sustentem o investimento em plantas de grande escala.
O Brasil reúne condições naturais raras para se tornar protagonista na produção de hidrogênio, e-metanol e SAF. A combinação de energia limpa abundante, terras produtivas e proximidade com rotas marítimas estratégicas coloca o país em posição de destaque. A janela, no entanto, não permanecerá aberta indefinidamente: os próximos dois ou três anos definirão se o Brasil converte seu potencial em contratos de exportação firmados ou observa outros mercados avançarem primeiro.
