23/06/2026

Laboratório da UFMS reforça o protagonismo do Brasil na pesquisa em hidrogênio verde

Mato Grosso do Sul acaba de dar um passo relevante na corrida tecnológica do hidrogênio verde. Na terça-feira, 5 de maio, a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) inaugurou o Laboratório Modular Copa H2, espaço dedicado a uma pesquisa inédita no país: a mistura de hidrogênio verde com gás liquefeito de petróleo (GLP) para aplicação industrial.

O projeto nasce de uma parceria entre a UFMS, por meio do Laboratório de Tecnologias Avançadas em Energia e Sustentabilidade (LaTES), e a Copa Energia, com apoio do Governo de Mato Grosso do Sul via Fundect. A proposta é reduzir as emissões de poluentes associadas ao GLP sem comprometer a eficiência energética que setores como alimentos e vidro plano já conhecem.

Como funciona a tecnologia desenvolvida na universidade

No centro da iniciativa está o MixOby, equipamento batizado a partir da palavra “oby”, que significa verde em tupi-guarani. Desenvolvido internamente pela UFMS, ele produz hidrogênio renovável a partir da água, usando energia solar, e injeta esse hidrogênio em tempo real diretamente na linha de GLP do cliente industrial da Copa Energia.

O resultado esperado é uma combustão mais limpa, com menor liberação de dióxido de carbono (CO₂) e óxidos de nitrogênio (NOx), gases associados ao efeito estufa e a problemas respiratórios. Coordenado pelo professor Cauê Alves Martins, do Instituto de Física da UFMS, o projeto reuniu cerca de 20 pesquisadores ao longo de 20 meses de estudos. A expectativa da Copa Energia é levar a tecnologia à operação comercial até o fim de 2026.

Entre os ganhos projetados para o setor industrial, destacam-se:

  • Redução de emissões de CO₂ e NOx sem necessidade de substituir integralmente a infraestrutura de GLP já instalada.
  • Aplicação direta em segmentos intensivos em energia térmica, como produção de alimentos e fabricação de vidro plano.
  • Geração de conhecimento proprietário, com potencial de licenciamento e expansão para outros clientes industriais.

Uma trajetória que começou antes

O Copa H2 não surge isolado. Em abril de 2025, a UFMS já havia inaugurado a primeira usina piloto industrial de hidrogênio verde do Centro-Oeste, instalada na Cidade Universitária de Campo Grande. Aquela estrutura, o H2V+ (Laboratório Multiusuário de Estudos sobre o Hidrogênio Verde), tem capacidade para produzir até uma tonelada de hidrogênio por mês a partir de painéis solares e eletrolisadores, em parceria com a Rede Brasileira de Certificação, Pesquisa e Inovação (RBCIP). A meta era formar cerca de 500 profissionais especializados por ano. O Copa H2 representa um desdobramento natural dessa base, agora com foco mais estreito e um parceiro industrial definido desde o início.

O contexto regulatório que sustenta o avanço

Iniciativas como essa avançam dentro de uma moldura legal que vem se consolidando rapidamente. A Lei 14.948, sancionada em agosto de 2024, criou a Política Nacional do Hidrogênio de Baixa Emissão de Carbono, reunindo quatro pilares:

  1. O Programa Nacional do Hidrogênio (PNH2).
  2. O Programa de Desenvolvimento do Hidrogênio de Baixa Emissão de Carbono (PHBC).
  3. O Sistema Brasileiro de Certificação do Hidrogênio (SBCH2).
  4. O Regime Especial de Incentivos para a Produção de Hidrogênio de Baixa Emissão de Carbono (Rehidro), que suspende por cinco anos a cobrança de PIS/Pasep e Cofins sobre insumos do setor.

Em novembro de 2025, um decreto detalhou os critérios técnicos de certificação, incluindo a metodologia de análise de ciclo de vida usada para medir emissões. Em abril de 2026, o Ministério de Minas e Energia apresentou ao Conselho Nacional de Política Energética uma proposta de diretrizes organizada em seis eixos, que vão do fortalecimento científico-tecnológico à abertura de mercado. Segundo o Plano Decenal de Energia da Empresa de Pesquisa Energética, o Brasil teria capacidade técnica para produzir até 1,8 gigatonelada de hidrogênio por ano até 2031, com mais de R$ 200 bilhões em projetos já protocolados, concentrados majoritariamente no Ceará e no Piauí.

Onde o Brasil se encaixa no movimento global

A corrida tecnológica não é exclusivamente brasileira. Pesquisadores da Escola Politécnica da USP, ligados ao Research Centre for Greenhouse Gas Innovation, anunciaram em dezembro de 2025 o desenvolvimento de um eletrolisador sem membrana, abordagem que busca reduzir custo e aumentar a durabilidade do equipamento eliminando um dos componentes mais caros da cadeia.

Esse esforço dialoga com análises da Agência Internacional de Energias Renováveis (IRENA), que projeta queda de até 40% no custo dos eletrolisadores no curto prazo e de até 80% no longo prazo, o que poderia tornar o hidrogênio verde competitivo com o hidrogênio azul antes de 2030. No plano internacional, grupos como a Iberdrola seguem expandindo plantas na Espanha, em parceria com a bp, com projetos que incluem o Brasil entre os mercados prioritários.

Para empresas que dependem de eletrolisadores, sistemas de certificação e integração entre energia renovável e processos industriais, o avanço simultâneo da pesquisa acadêmica e da regulamentação cria uma janela concreta de oportunidade. O Laboratório Modular Copa H2 ilustra bem esse movimento: conecta ciência aplicada, capital privado e política pública em torno de um mesmo objetivo, tornar a matriz energética industrial brasileira mais limpa sem perder competitividade.

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