A maior feira de inovação industrial do mundo recebeu, em abril de 2026, um dos projetos mais ambiciosos da transição energética brasileira. O Complexo do Pecém levou à Hannover Messe 2026 o seu Hub de Hidrogênio Verde, empreendimento que pretende transformar o litoral cearense em ponto de partida da exportação de moléculas limpas para a Europa. A presença não foi simbólica. Com o Brasil na condição de país parceiro oficial do evento, o Pecém ocupou o centro das conversas sobre descarbonização industrial e abriu negociações diretas com investidores estrangeiros.
O que o Pecém apresentou na maior feira industrial do mundo
A Hannover Messe 2026 aconteceu entre 20 e 24 de abril e reuniu cerca de 4 mil empresas de 60 países, entre elas Amazon Web Services, Bosch, Siemens, Microsoft e Huawei. O Brasil participou como país parceiro oficial, com uma delegação de mais de 300 empresas e apoio da ApexBrasil. No espaço brasileiro, dedicado a energia e infraestrutura industrial, o Pecém apresentou as vantagens competitivas do hub que será instalado na Zona de Processamento de Exportação do Ceará (ZPE Ceará).
A mensagem levada à Alemanha foi de maturidade. Segundo Fabio Grandchamp, vice-presidente de Operações do Complexo do Pecém, o projeto já reúne pré-contratos, área reservada e cronograma definido, o que o coloca entre os mais avançados do país. Durante a feira, a comitiva cearense recebeu cerca de 20 investidores internacionais e participou de três painéis sobre o hub e sobre o corredor logístico que conecta o Ceará à Europa.
Os sete pré-contratos que sustentam o projeto
O hub chega à fase de decisão apoiado em uma carteira robusta. São sete pré-contratos assinados, que somam aproximadamente R$ 60 bilhões em investimentos previstos. As empresas já pagam aluguel pelas áreas reservadas na ZPE Ceará enquanto concluem o detalhamento técnico de cada planta.
| Empresa | Origem | Foco principal |
|---|---|---|
| Auren Energia (ex-AES Brasil) | Brasil | H2V e derivados |
| Casa dos Ventos | Brasil | Amônia verde |
| EDF | França | Hidrogênio verde |
| Fortescue | Austrália | H2V, primeira a obter licença prévia |
| FRV (Jameel Energy) | Espanha | Amônia verde, projeto H2 Cumbuco |
| Voltalia | França | Amônia verde |
| Fuella AS | Noruega | 400 mil t/ano de amônia verde |
Entre os destaques individuais, a Fortescue projeta cerca de R$ 17,5 bilhões para produzir 170 mil toneladas de hidrogênio verde por ano a partir de 2029. A FRV estima cerca de R$ 27 bilhões no projeto H2 Cumbuco, voltado aos mercados europeu e asiático. Já a norueguesa Fuella AS, vencedora do primeiro leilão do Banco Europeu de Hidrogênio, prevê R$ 9 bilhões para uma planta de 400 mil toneladas anuais de amônia verde.
Cronograma e metas de produção
O calendário do hub indica um avanço gradual da fase de planejamento para a implementação. As decisões finais de investimento estão previstas para o fim de 2026, marco que converte os pré-contratos em contratos definitivos. A meta de produção é expressiva: 1 milhão de toneladas de hidrogênio verde por ano até 2032, volume capaz de atender até 25% da demanda de importação do Porto de Roterdã.
Os principais marcos podem ser resumidos assim:
- 2026, decisões finais de investimento dos sete pré-contratos.
- 2029, fornecimento das primeiras moléculas verdes à Europa.
- 2030, início da produção em escala industrial.
- 2032, alcance da meta de 1 milhão de toneladas anuais.

O corredor verde que liga o Ceará à Europa
A competitividade do Pecém não se explica apenas pela produção. O projeto se apoia no Corredor Verde, um eixo logístico que conecta o porto cearense aos portos de Roterdã, nos Países Baixos, e de Duisport, na Alemanha. A rota foi ampliada para o Porto de Rostock, no norte alemão, alcançando também países do Mar Báltico.
Os pilares dessa estratégia incluem:
- Produção concentrada na ZPE Ceará, apoiada em energia eólica e solar abundante.
- Transporte marítimo de amônia verde e e-metanol até a Europa.
- Recebimento e distribuição pelos portos de Roterdã e Duisport.
- Fornecimento de moléculas verdes ao mercado europeu até 2029.
Durante a World Hydrogen 2026, realizada em Roterdã, essa cooperação foi formalizada em um acordo entre Brasil e União Europeia, com a presença do Rei dos Países Baixos, Willem-Alexander.
O que a vitrine global representa
A ida do Pecém à Hannover Messe consolida uma mudança de posição. O Ceará deixou de ser apenas um candidato a destino de investimento para se tornar peça central na conexão industrial entre Europa e América Latina. A combinação de matriz renovável, infraestrutura portuária de classe mundial e regras claras de exportação cria um ambiente raro no mercado global de hidrogênio.
Os próximos meses serão decisivos. As decisões finais de investimento previstas para o fim de 2026 vão indicar quantos dos sete projetos saem do papel e em que ritmo. Para a cadeia de eletrolisadores e energia limpa, o Pecém funciona como termômetro do que o Brasil pode entregar quando alinha ambição, capital e logística em um mesmo território.
