Em 17 de setembro de 2026, a Moeve iniciou em Palos de la Frontera, na província de Huelva, a construção da primeira fase do Vale Andaluz do Hidrogênio Verde. Batizada de Onuba, a etapa reúne investimento superior a 1 bilhão de euros e 300 MW de eletrólise, com possibilidade de ampliação para 405 MW. Na cerimônia, o presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez, classificou o hidrogênio verde como um “projeto de país” e informou que o Executivo já destinou mais de 3 bilhões de euros a mais de 120 projetos de hidrogênio renovável.
Para o Brasil, que disputa espaço como exportador de moléculas verdes, o avanço do hidrogênio verde na Espanha funciona como benchmark concreto, pois combina energia renovável abundante, apoio público coordenado e uma âncora industrial para absorver a produção.
O que está sendo construído em Huelva
Apresentado como o maior projeto de hidrogênio verde da Europa, o Onuba tem os seguintes números principais:
- Capacidade inicial: 300 MW de eletrolisadores, expansíveis para 405 MW.
- Produção estimada: cerca de 45 mil toneladas de hidrogênio renovável por ano.
- Emissões evitadas: 250 mil toneladas de CO₂ por ano, segundo a companhia.
- Apoio público: 304 milhões de euros do Plano de Recuperação, Transformação e Resiliência, financiado pela União Europeia.
- Impacto econômico: mais de 8 mil empregos diretos, indiretos e induzidos, com participação de mais de 400 pequenas e médias empresas locais.
Além disso, a estrutura societária distribui o risco. A Moeve detém 51% do projeto, enquanto o fundo Hy24 e a estatal Cofides somam 29%, e Enagás Renovable e Alter Enersun ficam com os 20% restantes. A britânica Wood atua como engenharia do proprietário e coordena mais de 400 contratadas e subcontratadas.
A ambição, no entanto, vai muito além da primeira fase. O plano completo prevê 2 GW de eletrólise distribuídos entre Huelva e San Roque, em Cádis, com capacidade para cerca de 300 mil toneladas anuais e investimento acumulado de 3 bilhões de euros. A meta é alcançar produção em escala industrial antes de 2030.
Por que a demanda vem antes da molécula
Um aspecto decisivo está no destino do hidrogênio. Em vez de depender de compradores externos, a Moeve usará a produção no próprio refino, para fabricar combustível sustentável de aviação (SAF) e diesel renovável (HVO), além de atender à indústria pesada e ao transporte marítimo e rodoviário.
Esse desenho ataca um gargalo central do setor. Como resumiu o portal espanhol Merca2, “o hidrogênio não se vende sozinho”. Ou seja, contratos de compra de longo prazo costumam pesar mais sobre a viabilidade de um projeto do que a disponibilidade da tecnologia de eletrólise.
A tese de competitividade entre o verde e o cinza
O ponto mais debatido veio do CEO da Moeve, Maarten Wetselaar. Segundo ele, o hidrogênio verde já é competitivo frente ao cinza, em parte pelo preço elevado do gás natural, pressionado pelo conflito no Oriente Médio.
A lógica é direta. O hidrogênio cinza vem da reforma a vapor do gás natural, portanto seu custo acompanha o combustível. O verde, por sua vez, é obtido pela eletrólise da água com eletricidade renovável. Wetselaar afirma que cerca de 70% do custo do hidrogênio verde depende do preço dessa eletricidade, o que favorece a Península Ibérica, onde a energia renovável é mais barata que no restante da Europa.
Os resultados do segundo leilão do Banco Europeu de Hidrogênio, citados pelo jornal El Español, reforçam esse argumento:
- Espanha: custo médio de 5,5 euros por quilo de hidrogênio.
- Média europeia: 7,1 euros por quilo.
- Resto da Europa, excluindo a Espanha: 9,4 euros por quilo.
Mesmo assim, a comparação global impõe cautela. A China já produz a cerca de 3 euros por quilo, e a Índia registrou lance de 2,68 euros por quilo em leilão da refinaria de Numaligarh. Além disso, a vantagem frente ao cinza depende em boa parte do gás caro. Caso o custo da eletricidade renovável suba ou os mandatos europeus de combustíveis sustentáveis percam força, a diferença pode voltar a pesar contra o verde. Por isso, Wetselaar aposta que precificação de carbono e ganho de escala farão as curvas de custo se cruzarem de forma estrutural.
O que a experiência espanhola ensina ao Brasil exportador
O Brasil também acelera. Em 23 de setembro de 2026, o governo publicou o Decreto nº 13.096/2026, que regulamenta a Política Nacional do Hidrogênio, o sistema de certificação, o Rehidro e o Programa de Desenvolvimento do Hidrogênio de Baixa Emissão de Carbono (PHBC). O programa prevê 18,3 bilhões de reais em créditos fiscais, distribuídos em procedimento concorrencial conduzido pelo Ministério da Fazenda, no qual vence quem pedir menos crédito por unidade produzida. Inicialmente, o limite para enquadramento é de 7 kg de CO₂ equivalente por quilo de hidrogênio. O primeiro leilão está previsto entre o fim de 2026 e janeiro de 2027.
Diante desse cenário, o caso andaluz oferece quatro lições objetivas:
- Âncora de demanda antes da escala. Projetos com consumo garantido, como refino, fertilizantes ou siderurgia, reduzem o risco de mercado e atraem capital.
- Eletricidade barata como vantagem decisiva. Se 70% do custo vem da energia, a matriz renovável brasileira é um ativo que precisa ser convertido em preço competitivo por quilo.
- Coordenação entre Estado e infraestrutura. O presidente da Junta de Andaluzia, Juanma Moreno, alertou que o sul espanhol precisa de infraestrutura elétrica suficiente para receber tantos projetos, desafio que também se aplica ao Nordeste brasileiro.
- Capacidade de execução industrial. Integrar eletrolisadores na escala de centenas de megawatts exige planejamento de engenharia desde a concepção.
Da fase piloto à escala industrial
“Hoje deixamos para trás a era dos projetos-piloto para avançar para a construção”, declarou Wetselaar na cerimônia. Para o Brasil, o desafio agora é transformar anúncios em projetos economicamente viáveis, com demanda contratada, energia competitiva e escolhas tecnológicas consistentes em eletrólise. Quem estruturar bem esses pilares terá posição privilegiada quando o mercado global ganhar escala.
Referências
- MOEVE. Moeve arranca la construcción de la primera fase del mayor proyecto de hidrógeno verde de Europa. 17 set. 2026.
- LA MONCLOA. Pedro Sánchez subraya que el hidrógeno verde es un “proyecto de país”. 17 set. 2026.
- EURONEWS. Hidrógeno verde en Huelva: Moeve promete que España “liderará” la energía en Europa. 18 set. 2026.
- EL PLURAL. La paradoja energética de la guerra: el gas caro da oxígeno al hidrógeno verde andaluz. Set. 2026.
- EL ESPAÑOL. China e India se disputan el liderazgo en producción de hidrógeno verde con Europa: sólo España compite en precio. 18 set. 2026.
- MERCA2. Moeve arranca en Huelva su planta de hidrógeno verde y Wood dirigirá el Valle del Hidrógeno. 22 set. 2026.
- REVIEW ENERGY. Moeve inicia la construcción del Valle Andaluz del Hidrógeno Verde con 300 MW y 1.000 millones. Set. 2026.
- CINFORM. Decreto do hidrogênio de baixa emissão de carbono marca nova etapa em regulamentação. Set. 2026.
- MOVIMENTO ECONÔMICO. Leilão de 2027 será o primeiro grande teste do hidrogênio verde para o Nordeste. 4 jul. 2026.
