03/03/2026

O Papel do BNDES na nova economia do hidrogênio no Brasil

Quando executivos de energia falam sobre hidrogênio verde no Brasil, a conversa gira quase sempre em torno de ventos favoráveis no Nordeste, custos de eletrolisadores e janelas de exportação. O que raramente entra na pauta com a mesma profundidade é a pergunta que, na prática, decide se um projeto sai do PowerPoint ou não: quem financia a infraestrutura que vem antes?

É aqui que o BNDES ocupa um papel que vai além do banco de fomento convencional.

De financiador a arquiteto de mercado

A lógica tradicional de crédito não funciona para ativos intensivos em capital, com risco regulatório elevado e demanda ainda em formação, como é o caso do hidrogênio de baixa emissão. O que o BNDES passou a fazer, de forma mais estruturada nos últimos anos, é diferente: entrar como cotista âncora via BNDESPar em fundos privados, reduzindo o risco percebido e desbloqueando capital de outros investidores.

Na prática, isso significa que o banco não precisa financiar cada projeto diretamente. Ele financia o ecossistema.

A Chamada de Clima, lançada em setembro de 2025 e com resultados divulgados em janeiro de 2026, é o exemplo mais recente e concreto desse modelo. O BNDES selecionou sete fundos de investimento que receberão aportes de até R$ 4,3 bilhões da BNDESPar, com expectativa de alavancar aproximadamente R$ 16,2 bilhões adicionais do setor privado.

Para colocar em perspectiva: o banco não está apenas emprestando. Está comprando alavancagem.

Como o dinheiro está estruturado

Os sete fundos selecionados se dividem em duas vertentes principais:

  • Transformação Ecológica (TE): focada em indústria de baixo carbono, energia, minerais críticos, eletrificação, armazenamento e, explicitamente, hidrogênio, com até R$ 4 bilhões alocados em até cinco fundos de equity e crédito.
  • Soluções Baseadas na Natureza (SBN): voltada para reflorestamento, restauração e cadeias regenerativas, com até R$ 1 bilhão em dois fundos adicionais.

Na vertical TE, três fundos de equity se destacam pela relevância para a cadeia do hidrogênio verde:

  1. Catalytic Transition Fund Brazil (Brookfield) — com aporte potencial de até R$ 1 bilhão, o maior da lista, voltado a ativos e plataformas de transição energética.
  2. EB Clima II (eB Capital / Flying Rivers) — com tese declarada em descarbonização industrial e transição energética, incluindo rotas de abatimento via H2V.
  3. Generation Just Climate Brasil (Just Climate) — estratégia global focada em setores de difícil descarbonização, com Brasil e Índia como polos de alocação prioritária.

Dois fundos de crédito completam a arquitetura: o Vinci Crédito Soluções Climáticas e o FIDC Clima Riza Fama, com patrimônio-alvo de R$ 1 bilhão cada, estruturados para financiar o “chão de fábrica” da transição, incluindo retrofit industrial, integração elétrica, contratos e logística.

A peça que ninguém menciona: garantias

Há um elemento sistematicamente subestimado nas discussões sobre financiamento climático: a garantia.

O caso da Mombak é ilustrativo. O BNDES aprovou R$ 100 milhões para restauração florestal via Fundo Clima e BNDES Finem, mas a operação só se viabilizou após a concessão de fiança bancária pelo Santander. Sem essa peça, o desembolso não acontecia.

Para projetos de hidrogênio verde, o raciocínio é diretamente aplicável. Eletrolisadores, sistemas de compressão, infraestrutura de exportação e contratos de offtake criam uma cadeia de riscos que dificilmente é absorvida por um único instrumento. Garantias bancárias, de performance ou estruturais (como a posição sênior do BNDESPar nos fundos de crédito) são frequentemente o que separa o anúncio do desembolso.

Pecém como campo de teste

O Complexo do Pecém, no Ceará, concentra hoje os projetos mais avançados de hidrogênio verde do Brasil. Não por acaso: o hub reúne infraestrutura portuária, disponibilidade de energia renovável e proximidade com rotas de exportação para a Europa.

Mas um hub portuário exige muito antes do primeiro quilograma de H2 exportado: linhas de transmissão, disponibilidade hídrica, integração logística, contratos de longo prazo e capacidade de refinanciamento ao longo do ciclo de vida dos ativos. Tudo isso é, essencialmente, infraestrutura financiável.

É precisamente aí que a Chamada de Clima ganha relevância estratégica para Pecém e para qualquer polo industrial que aposte no hidrogênio. Os fundos TE selecionados pelo BNDES foram desenhados para financiar exatamente essa camada: não o hype do produto, mas a estrutura que o viabiliza.

O que isso significa para CFOs e gestores de projeto

Para executivos que estão avaliando como acessar esse ecossistema de financiamento, algumas orientações práticas emergem do desenho da Chamada:

  • Estágio de desenvolvimento: fundos de equity TE (Brookfield, eB Capital, Just Climate) são o caminho natural para projetos em fase de estruturação, expansão de plataforma ou constituição de SPV.
  • CAPEX com cronograma definido: fundos de crédito (Vinci, Riza Fama) atendem melhor projetos com engenharia avançada, fornecedores contratados e contratos de receita em negociação.
  • Documentação mínima: qualquer abordagem a esses veículos exige, no mínimo, caso econômico robusto (CAPEX, OPEX, sensibilidades), caso técnico com gestão de riscos, ancoragem comercial (mesmo que em pré-contratos) e enquadramento na Taxonomia de Sustentabilidade do BNDES, critério formal avaliado com peso de 20% no processo de seleção dos fundos.

A tese de fundo: infraestrutura, não hype

O movimento do BNDES com a Chamada de Clima sinaliza algo mais amplo do que um programa de financiamento. Sinaliza uma aposta institucional na industrialização da transição energética, tratando hidrogênio, descarbonização industrial e soluções baseadas na natureza como infraestrutura, com os mesmos critérios de governança, risco e retorno que se aplicam a rodovias ou usinas.

Para o Brasil, isso é relevante por uma razão objetiva: o país tem os recursos naturais para liderar a produção de hidrogênio verde em escala global. O que faltava era a arquitetura financeira para transformar esse potencial em fluxo de caixa. O BNDES está construindo essa arquitetura, um fundo âncora de cada vez.

A questão, agora, é saber quais projetos vão estar prontos para atravessar essa porta quando ela abrir.

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