20/01/2026

Amônia verde: o mercado de R$ 150+ bilhões que posiciona o Brasil como protagonista global

A transição energética global está criando oportunidades bilionárias para países com vantagens competitivas em energias renováveis. O Brasil emerge como candidato natural nessa corrida, particularmente no segmento de amônia verde, uma molécula que promete revolucionar desde a produção de fertilizantes até o transporte marítimo internacional.

O que torna a amônia verde estratégica

Diferentemente da amônia convencional (cinza), produzida a partir da reforma de gás natural e responsável por emitir duas toneladas de CO₂ para cada tonelada produzida, a amônia verde combina hidrogênio obtido via eletrólise da água com eletricidade renovável e nitrogênio atmosférico através do processo Haber-Bosch. O resultado? Zero emissões de carbono na produção.

Essa característica a posiciona como vetor essencial para descarbonizar setores complexos:

  • Fertilizantes, que concentram 80% da demanda atual
  • Transporte marítimo, onde serve como combustível zero-carbono
  • Geração de energia através de co-firing e armazenamento
  • Indústrias química e siderúrgica como agente redutor

A versatilidade da amônia verde explica as projeções agressivas de mercado. Segundo a MarketsandMarkets, o setor deve saltar de US$ 0,3 bilhão em 2023 para US$ 17,9 bilhões em 2030, uma taxa de crescimento anual composta de 72,9%. Estimativas da Fortune Business Insights apontam até US$ 44 bilhões em 2032, com volumes globais de exportação atingindo 110-130 megatoneladas anuais até 2050.

Por que o Brasil compete de igual para igual

A competitividade brasileira no mercado de amônia verde deriva de vantagens estruturais difíceis de replicar. O custo nivelado de amônia (LCOA) no país varia entre US$ 539 e US$ 1.103 por tonelada, segundo dados da CELA 2025, comparável à própria amônia cinza (US$ 361-1.300/t) e superior a concorrentes estabelecidos.

A matriz de custos revela onde reside essa vantagem. Renováveis representam 50-60% do custo total, seguidos por eletrólise (20-30%), processo Haber-Bosch (10%) e logística (10-20%). O Brasil possui capacidade renovável instalada de 60% da matriz energética, com mix eólico-solar e custos de eletricidade abaixo de US$ 20/MWh, patamar que poucos países alcançam.

Outros fatores consolidam a posição brasileira: portos estratégicos como Açu, Pecém e Suape; disponibilidade abundante de água; e infraestrutura em desenvolvimento. Austrália e Chile competem com recursos solares e eólicos robustos, enquanto o Oriente Médio combina energia solar com gás barato para captura de carbono. Os Estados Unidos, apesar dos incentivos da Inflation Reduction Act, enfrentam custos de rede elétrica elevados que pressionam o LCOA para US$ 700-1.200/t.

Da promessa aos projetos concretos

O ecossistema brasileiro de amônia verde ainda caminha para a maturidade. O Porto do Açu lidera com três grandes projetos: Sempen (1 Mt/ano, FID esperado para 2027-28), YamnaCo (1 Mt/ano sob memorando de entendimento) e Fuella. Pecém e Suape desenvolvem iniciativas similares com Yamna e Fuella.

Políticas públicas avançam para criar ambiente favorável. O Programa Nacional de Hidrogênio (PNH2), lançado pelo MME em 2021 e atualizado em 2025 com o Portal do Hidrogênio, estabelece diretrizes para o setor. A Lei do Hidrogênio Limpo, aprovada em agosto de 2024, e o compromisso de US$ 3 bilhões do BNDES para 2025 sinalizam apoio governamental.

Porém, nenhum projeto alcançou decisão final de investimento (FID) até janeiro de 2026. Todos permanecem em fase de memorandos ou estudos de pré-viabilidade, um contraste com competidores internacionais como o projeto NEOM da Arábia Saudita (1,2 Mt/ano, operação prevista para 2026).

Gargalos que precisam ser endereçados

A distância entre potencial e execução revela desafios estruturais. Licenciamento ambiental moroso, expansão portuária insuficiente e conexões à rede elétrica limitadas criam fricção para desenvolvedores.

A cadeia de valor apresenta pontos críticos: electrolysers ainda dependem de importação, certificação de origem RFNBO para acesso ao mercado europeu demanda processos complexos, e questões de segurança (amônia é tóxica) exigem protocolos rigorosos.

Do lado da demanda, offtakers hesitam em firmar contratos de longo prazo sem visibilidade de preços e fornecimento. A União Europeia, através da diretiva RED III, estabeleceu meta de 42% de renováveis até 2030 e exige 70% de redução em emissões de gases de efeito estufa para combustíveis renováveis de origem não-biológica. Japão e Coreia do Sul buscam amônia para co-firing em usinas e descarbonização do setor marítimo alinhado às metas IMO 2050.

O cenário realista para 2030-2040

Projeções conservadoras situam o Brasil com capacidade de 2 megatoneladas anuais em 2030, escalando para 5-10 Mt/ano em 2035-2040 caso os projetos avancem para FID entre 2027-2028. Isso representaria capturar 5-10% das exportações globais de amônia verde.

O potencial de receitas depende fundamentalmente da execução. Exportações de 10 Mt/ano a US$ 600/t gerariam US$ 6 bilhões anuais (aproximadamente R$ 32 bilhões ao câmbio de janeiro de 2026). A tese de “R$ 150+ bilhões” incorpora tanto CAPEX acumulado de projetos quanto fluxos de exportação projetados para 2040.

Três apostas definem o sucesso:

  1. Priorização de hubs portuários (Açu/Pecém) com infraestrutura acelerada
  2. Ancoragem em demanda clara de fertilizantes e transporte marítimo
  3. Política efetiva de certificação RFNBO e financiamento estruturado via BNDES

O protagonismo brasileiro neste mercado não é automático. Depende de superar gargalos regulatórios, atrair offtakers com contratos firmes e executar cronogramas ambiciosos — transformando vantagens naturais em liderança comercial concreta.

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