07/07/2026

Por que o Japão aposta na amônia para descarbonizar usinas a carvão

O Japão iniciou um dos experimentos energéticos mais observados do mundo. Em vez de desativar suas usinas a carvão, o país decidiu transformá-las, substituindo parte do combustível fóssil por amônia, uma molécula que não emite CO2 na queima. A estratégia divide opiniões, mas seus desdobramentos já movimentam bilhões de dólares na cadeia global de hidrogênio e amônia de baixo carbono, com implicações diretas para países produtores como o Brasil.

O experimento de Hekinan e seus resultados

A Usina Termelétrica de Hekinan, na província de Aichi, é a maior planta a carvão do Japão, com cinco unidades e 4.100 MW de capacidade instalada. É operada pela JERA, joint venture entre a Tokyo Electric Power e a Chubu Electric Power, responsável por cerca de 30% da eletricidade japonesa.

Entre abril e junho de 2024, a JERA e a fabricante de equipamentos IHI conduziram na Unidade 4 de Hekinan, de 1.000 MW, o primeiro teste do mundo em escala comercial substituindo 20% do carvão por amônia em valor calorífico. O projeto foi financiado pela NEDO, agência estatal japonesa de desenvolvimento tecnológico.

Os resultados técnicos superaram as expectativas:

  • Operação estável na potência nominal de 1 GW durante todo o período de testes.
  • Níveis de óxidos de nitrogênio (NOx) equivalentes aos da queima exclusiva de carvão.
  • Redução de 20% nas emissões de óxidos de enxofre (SOx).
  • Geração de N2O, gás de intenso efeito estufa, abaixo do limite de detecção.
  • Operabilidade da planta comparável à operação convencional.

Com base nesses resultados, a JERA avançou para a fase comercial. Segundo informações divulgadas em janeiro de 2026, a empresa está no caminho para atingir a co-combustão comercial de 20% de amônia no ano fiscal de 2029, o que representará o primeiro uso comercial de amônia como combustível de geração elétrica no mundo. Quatro grandes tanques de armazenamento já estão em construção no local.

Um roadmap de longo prazo

A estratégia japonesa segue etapas bem definidas:

  1. Ano fiscal de 2029: operação comercial com 20% de amônia na Unidade 4 de Hekinan, consumindo cerca de 500 mil toneladas de amônia por ano em uma única unidade.
  2. Década de 2030: elevação da taxa de co-combustão para 50%, com demonstrações previstas em outra unidade da usina.
  3. Até 2050: transição para queima de 100% de amônia, eliminando completamente o carvão e zerando as emissões operacionais.

Para garantir o suprimento, a JERA estruturou toda a cadeia de valor. A empresa formou uma joint venture com a americana CF Industries e a trading japonesa Mitsui para construir na Louisiana o projeto Blue Point, uma das maiores plantas de amônia de baixo carbono do mundo, orçada em cerca de US$ 4 bilhões. O governo japonês concedeu subsídio por 15 anos para cobrir a diferença de preço entre a amônia e o carvão.

As razões por trás da escolha japonesa

A opção pela amônia reflete restrições estruturais do país. Cerca de 70% do território japonês é montanhoso, o que limita a instalação de parques eólicos onshore. As águas costeiras profundas dificultam turbinas offshore convencionais, e a energia nuclear ainda enfrenta resistência da população após o acidente de Fukushima em 2011.

Nesse contexto, adaptar usinas a carvão existentes para queimar amônia surge como alternativa de menor custo inicial e implementação mais rápida. O Japão também enxerga a tecnologia como produto de exportação para a Ásia, onde países como Vietnã, Tailândia, Filipinas e Malásia operam usinas a carvão recentes, cuja desativação imediata seria economicamente inviável.

As críticas e o fator que define tudo

A estratégia enfrenta contestação relevante. O Japão é o único país do G7 que não aderiu à aliança internacional pelo fim do carvão, e a iniciativa RE100 anunciou que, a partir de 2026, a eletricidade gerada por co-combustão de carvão e amônia não será contabilizada em metas corporativas de energia renovável. O IEEFA, instituto de análise econômica de energia, alerta que a abordagem pode atrasar a adoção de renováveis na Ásia.

O ponto central do debate é a origem da amônia. Pesquisa do Environmental Defense Fund indica que, dependendo do método de produção e das taxas de emissão, a produção de amônia pode gerar 50% mais aquecimento ou 80% menos, na comparação com uma usina a carvão convencional. Segundo a Agência Internacional de Energia, a produção de amônia responde hoje por cerca de 2% do consumo final de energia global, quase toda de origem fóssil, com pegada de carbono equivalente às emissões totais do sistema energético da África do Sul.

A conclusão é direta: a aposta japonesa só cumpre sua promessa climática se a amônia vier de fontes limpas. E o caminho mais consolidado para isso é a amônia verde, sintetizada a partir de hidrogênio produzido por eletrólise da água com energia renovável.

A oportunidade para o Brasil

A escala da demanda projetada abre espaço para novos fornecedores globais. O Brasil reúne condições competitivas raras, com matriz elétrica majoritariamente renovável, alta irradiação solar, ventos constantes no Nordeste e portos de águas profundas voltados à exportação.

Os projetos já saíram do papel. A Associação Brasileira da Indústria do Hidrogênio Verde destaca cinco iniciativas de maior potencial econômico, lideradas por Fortescue, Casa dos Ventos, Atlas Agro, Voltalia e European Energy, incluindo produção de amônia e metanol, com expectativa de R$ 63 bilhões em investimentos para o início dos projetos em 2026, concentrados sobretudo no Complexo de Pecém, no Ceará.

Como dez toneladas de hidrogênio podem ser convertidas em cerca de 60 toneladas de amônia, o composto funciona como o principal vetor logístico do hidrogênio verde, permitindo transporte marítimo de longa distância para mercados como o japonês. Para a indústria de eletrolisadores, cada nova usina asiática convertida à amônia representa demanda adicional por capacidade de eletrólise instalada em países produtores.

A aposta do Japão, portanto, vai além de uma decisão doméstica de política energética. Ela sinaliza a formação de um mercado transcontinental de moléculas limpas, no qual quem dominar a produção de hidrogênio por eletrólise ocupará posição estratégica nas próximas décadas.

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