Em 22 de maio de 2026, o Railway Board da Índia assinou a circular que autoriza a operação do primeiro trem movido a célula de combustível de hidrogênio do país. A composição circulará na rota Jind–Sonipat, em Haryana, e sua única emissão é vapor d’água.
Com essa aprovação, a Índia ingressa formalmente num grupo seleto de nações que já operam ou testam sistemas ferroviários movidos a hidrogênio, ao lado de Alemanha, Japão, China e Estados Unidos.
Mas o que torna esse projeto tecnicamente relevante vai além do trem em si.
O que é esse trem, de fato
A composição foi desenvolvida pela Integral Coach Factory (ICF), unidade fabril em Chennai vinculada ao Ministério das Ferrovias. A solução adotada foi o retrofit: células de combustível de hidrogênio foram integradas a uma unidade DEMU (Diesel Electric Multiple Unit) existente, substituindo os motores a diesel.
Especificações principais:
- Propulsão: sistema de 1.200 kW por célula de combustível de hidrogênio
- Velocidade máxima: 75 km/h
- Configuração: 10 vagões (2 carros de tração + 8 de passageiros)
- Emissão: apenas vapor d’água
- Capacidade: até 2.600 passageiros
A reação que move o trem é eletroquímica: o hidrogênio se combina com o oxigênio do ar, gerando eletricidade e água. Sem combustão, sem CO₂, sem material particulado.
O eletrolisador no centro do projeto
O abastecimento é feito por uma planta de produção de hidrogênio verde instalada na própria estação de Jind. O processo é por eletrólise, o mesmo utilizado por eletrolisadores industriais para separar o hidrogênio do oxigênio presente na água.
A infraestrutura inclui:
- Capacidade de armazenamento de 3.000 kg de hidrogênio comprimido
- Fornecimento elétrico dedicado de 11 kV para operação contínua da planta
- Licença regulatória da PESO para armazenamento e dispensação de H₂
Esse detalhe não é periférico. É o ponto central do modelo: sem produção local de hidrogênio, um trem a célula de combustível depende de uma logística de distribuição que ainda não existe em escala. A decisão indiana de instalar o eletrolisador no próprio ponto de abastecimento resolve esse gargalo na raiz.
O que a experiência europeia ensina
A Alemanha foi pioneira. Em 2018, a Alstom colocou em operação comercial o Coradia iLint na Baixa Saxônia, o primeiro trem a hidrogênio do mundo a circular com passageiros. O modelo atingia 140 km/h e percorreu 2,8 milhões de quilômetros antes de enfrentar problemas de abastecimento e manutenção de células que levaram à suspensão de serviços em Hesse, em 2025.
A lição é direta: a tecnologia funciona. O sistema ao redor dela ainda está amadurecendo.
Outros países seguem o mesmo caminho, com abordagens distintas:
- Baviera (Alemanha): trens Mireo Plus H da Siemens, previstos para 2026, com eletrólise local em Mühldorf
- Itália: projeto de €367 milhões em Valcamonica com 14 unidades Coradia e eletrolisadores in loco
- França: SNCF com 12 unidades eletro-hidrogênio em fase de testes
O padrão que emerge é sempre o mesmo: trem + eletrolisador local + hidrogênio certificado.
O tamanho do mercado que está se formando
O mercado global de trens a célula de combustível de hidrogênio deve crescer de US$ 2,67 bilhões em 2025 para US$ 26,4 bilhões até 2035, CAGR de 28,2%, a maior entre todos os segmentos de material rodante ferroviário.
O motor é estrutural: mais de 70% da malha ferroviária mundial não é eletrificada. Em trechos onde a eletrificação convencional é economicamente inviável, o hidrogênio compete diretamente com o diesel, e vence em emissões, em custo operacional de longo prazo e em regulação.
Cada nova rota aprovada no mundo é, também, uma nova demanda por capacidade de geração descentralizada de hidrogênio.
O que esperar daqui em diante
A rota Jind–Sonipat é piloto. O objetivo do Ministério das Ferrovias da Índia é demonstrar viabilidade antes de escalar para outros trechos não eletrificados do país, que somam dezenas de milhares de quilômetros. O modelo de retrofit aplicado reduz o custo de entrada ao reutilizar composições existentes, uma vantagem relevante para mercados emergentes.
A aprovação indiana chega no momento em que o mercado de trens a hidrogênio transita da fase de demonstração para a fase de comercialização.
Para os agentes do setor energético, isso não é apenas uma notícia ferroviária. É uma coordenada de mercado.
