26/05/2026

China e Índia apostam em energia limpa como estratégia industrial

A transição energética entrou em uma fase menos romântica e muito mais estratégica. Depois de anos em que energia limpa foi tratada principalmente como agenda climática, China e Índia passaram a enxergá-la como instrumento de política industrial, segurança energética e influência geopolítica. A questão central já não é apenas reduzir emissões. É ocupar as cadeias produtivas que podem definir a competitividade das próximas décadas.

Esse movimento ganha força justamente quando parte dos mercados ocidentais revisa prazos, reduz ambições ou adia projetos de hidrogênio verde diante de custos elevados, infraestrutura insuficiente e dificuldade de firmar contratos de compra de longo prazo. Segundo a Reuters, China e Índia estão usando políticas públicas, subsídios, demanda industrial e escala para tentar criar um mercado que ainda não amadureceu completamente.

A transição entrou em uma nova fase

O hidrogênio verde é relevante porque pode atender setores difíceis de eletrificar diretamente, como fertilizantes, refino, siderurgia, transporte marítimo e produção de combustíveis de baixa emissão. Ele é produzido por eletrólise da água com eletricidade renovável, diferentemente do hidrogênio convencional, ainda majoritariamente associado a combustíveis fósseis.

Mas o mercado continua pequeno. A Agência Internacional de Energia observa que a produção de hidrogênio de baixa emissão avançou desde 2021, com mais de 200 investimentos comprometidos, mas ainda enfrenta barreiras de custo, infraestrutura e regulação. A própria IEA ressalta que o crescimento não correspondeu a todas as expectativas do início da década e segue desigual entre regiões.

Esse cenário explica por que a corrida atual não deve ser lida como simples expansão de capacidade. O que está em jogo é a formação antecipada de mercado. Países que combinam energia renovável barata, equipamentos competitivos, financiamento público e compradores industriais podem criar vantagens difíceis de replicar.

A lógica chinesa é escala

A China parte de uma posição singular. O país já domina partes relevantes das cadeias globais de energia solar, baterias, veículos elétricos e equipamentos para renováveis. No hidrogênio verde, a estratégia é parecida: acelerar projetos de grande escala, reduzir custos pela produção industrial e integrar energia, manufatura e planejamento estatal.

A IEA estima que os investimentos chineses em energia limpa superaram US$ 625 bilhões em 2024, quase o dobro do nível de 2015. O país também atingiu, em 2024, sua meta de capacidade eólica e solar prevista para 2030, seis anos antes do cronograma.

No hidrogênio, os dados reforçam a velocidade do movimento. A Reuters informa que a China investiu US$ 3,7 bilhões em produção de hidrogênio verde no ano anterior, mais que o dobro dos Estados Unidos, segundo a Rystad Energy. A consultoria projeta que o país pode chegar a 2,6 milhões de toneladas anuais online até 2031, com US$ 26 bilhões em investimentos associados.

A vantagem chinesa está menos em uma única tecnologia e mais na capacidade de coordenar cadeia produtiva, capital, infraestrutura e demanda. Ainda assim, o modelo não é isento de riscos. A IEA aponta que a expansão renovável chinesa avançou mais rápido que a rede elétrica, elevando desafios de transmissão, armazenamento e aproveitamento efetivo da energia gerada.

A lógica indiana é demanda

A Índia atua com outra prioridade: reduzir dependência energética e criar uma base industrial própria para hidrogênio verde e seus derivados. Sua National Green Hydrogen Mission mira pelo menos 5 milhões de toneladas métricas por ano de hidrogênio verde até 2030, associadas a cerca de 125 GW de nova capacidade renovável. O plano também prevê mais de 8 lakh crore de rúpias em investimentos, mais de 600 mil empregos e abatimento de quase 50 milhões de toneladas anuais de emissões.

O ponto mais importante é que a Índia não está olhando apenas para produção. A missão prevê mecanismos para criação de demanda, fabricação doméstica de eletrolisadores, projetos-piloto, hubs de hidrogênio verde, padrões regulatórios e pesquisa aplicada.

Esse desenho é relevante porque muitos projetos de hidrogênio fracassam antes da construção por falta de compradores. Ao estimular contratos, leilões reversos e consumo em setores como fertilizantes, refino e aço, a Índia tenta tornar os projetos financiáveis desde o início.

O Ocidente ficou mais seletivo

A leitura correta não é que o Ocidente abandonou energia limpa. A transição segue recebendo capital, regulação e inovação. O ajuste está concentrado em projetos que dependiam de premissas agressivas de queda de custo, disponibilidade de infraestrutura e velocidade de adoção.

Essa seletividade pode ser saudável, mas também abre espaço competitivo. Enquanto alguns mercados recalibram metas, China e Índia procuram ocupar o intervalo entre incerteza e escala. Essa janela é decisiva, porque cadeias industriais raramente esperam consenso global para se consolidar.

O que observar a partir de agora

Para empresas B2B, o sinal é claro: energia limpa deixou de ser uma vertical isolada e passou a atravessar decisões de suprimento, engenharia, logística, risco regulatório e posicionamento de mercado. Os próximos anos devem separar projetos anunciados de ativos realmente competitivos. Três fatores merecem atenção:

  • Custo final do hidrogênio verde por quilograma;
  • Existência de contratos firmes com compradores industriais;
  • Capacidade de conectar energia renovável, eletrólise, armazenamento e transporte.

China e Índia estão fazendo apostas diferentes, mas com uma semelhança essencial: ambas tratam energia limpa como plataforma de desenvolvimento econômico. A China aposta em escala e domínio de manufatura. A Índia aposta em demanda organizada, segurança energética e construção de mercado.

A conclusão é contundente: a transição energética deixou de ser apenas uma agenda de descarbonização. Ela se tornou uma corrida industrial. E, nessa corrida, os países que conseguirem transformar política pública em capacidade produtiva terão vantagem muito antes de o mercado global parecer maduro.

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