24/03/2026

O ouro verde de Minas Gerais e o papel do hidrogênio na descarbonização da mineração

Minas Gerais pode estar diante de uma oportunidade rara: usar hidrogênio de baixo carbono não como peça de marketing industrial, mas como alavanca concreta de competitividade. O ponto decisivo não é apenas ambiental. É econômico. Poucos territórios reúnem, ao mesmo tempo, base mineral, parque siderúrgico, demanda térmica relevante e expansão renovável suficiente para testar uma transição em escala. Esse é o coração da tese apresentada no dossiê técnico anexado: o valor do hidrogênio em Minas nasce menos da exportação e mais da descarbonização de cadeias já instaladas.

Por que Minas parte na frente

Os números ajudam a entender por quê. Minas Gerais já soma 13,3 GW de capacidade instalada em energia solar fotovoltaica, segundo a Agência Minas, e o atlas eólico da Cemig aponta potencial de até 40 GW em torres de 100 metros. Em paralelo, o estado carrega uma base industrial intensiva em emissões e energia, especialmente na mineração e na siderurgia. É uma combinação incomum: oferta renovável crescente perto de uma demanda industrial que realmente precisa de soluções de descarbonização.

O ambiente regulatório também avançou mais do que a média nacional. A Lei estadual nº 24.940/2024 definiu objetivos para a política mineira do hidrogênio e adotou um critério mais restritivo para “hidrogênio de baixo carbono”, com limite de até 4 kgCO2eq por kg de H2. Já o Decreto nº 49.172/2026 criou diretrizes para integração com a infraestrutura de gás canalizado, exigiu planos periódicos de integração progressiva e autorizou redes isoladas para polos industriais e logísticos. No plano federal, a Lei nº 14.948/2024 estabeleceu o marco legal do setor, definiu hidrogênio de baixa emissão com valor inicial de até 7 kgCO2eq/kgH2 e estruturou instrumentos como certificação, PHBC e Rehidro.

Isso muda a conversa. Minas não precisa vender uma promessa abstrata de “hub global”. Precisa construir um mercado interno sólido.

Onde o hidrogênio cria valor primeiro

As aplicações com melhor relação entre risco e retorno parecem ser três:

  • Mistura controlada de hidrogênio com gás natural em processos térmicos industriais;
  • Redes isoladas para polos siderúrgicos e mineradores, evitando a pressa de adaptar toda a malha;
  • Projetos-piloto de maior intensidade tecnológica, preparando a migração futura para rotas siderúrgicas de baixa emissão.

Essa estratégia faz sentido porque a infraestrutura já existe, ao menos em parte. A Gasmig informa operar 1.675 km de gasodutos e atender 47 municípios mineiros. Ao mesmo tempo, o estado já abriga ativos que reduzem o risco da curva de aprendizado, como o CH2V da Unifei, com planta de eletrólise de 300 kW, e o projeto da Cemig para testar hidrogênio em mistura com gás natural em queimadores e fornos industriais. Em outras palavras: Minas não parte do zero.

A virada está na siderurgia

Mas a transformação estrutural, de verdade, está na siderurgia. Dados da worldsteel mostram a diferença de intensidade média de CO2 entre rotas produtivas: 2,32 tCO2 por tonelada de aço para BF-BOF, 1,43 tCO2 para DRI-EAF e 0,70 tCO2 para sucata-EAF. É por isso que o debate sério passou a olhar para a combinação H2-DRI-EAF. Ela é a rota mais direta para reduzir emissões na produção primária de aço sem depender exclusivamente de sucata.

Só que não cabe romantismo tecnológico. Uma planta baseada em redução direta com hidrogênio exige minério adequado, controle térmico rigoroso, eletricidade renovável abundante e contratos longos que sustentem o investimento. A literatura recente aponta demanda da ordem de 50 a 60 kg de hidrogênio por tonelada de aço em instalações HyDR. Isso significa que cada milhão de toneladas de aço por ano empurra a necessidade de hidrogênio para dezenas de milhares de toneladas anuais. Não é projeto de vitrine. É infraestrutura pesada.

O exemplo empresarial mais instrutivo vem da própria cadeia mineral. Em 2024, Vale e Midrex anunciaram cooperação técnica para avançar o uso de briquetes de minério de ferro em plantas de redução direta. O sinal é importante: a descarbonização do aço começa antes do forno. Ela começa na qualidade do insumo mineral e na capacidade de adaptar a matéria-prima às novas rotas industriais.

O que ainda precisa acontecer

Há, porém, três travas que não podem ser disfarçadas.

  • A primeira é energia barata e estável. Sem isso, o hidrogênio perde competitividade antes mesmo de sair do eletrolisador.
  • A segunda é execução industrial. Adaptar dutos, queimadores, sistemas de medição, segurança e armazenamento exige disciplina técnica, não anúncio.
  • A terceira é governança comercial. Sem contratos de longo prazo, ninguém imobiliza capital em escala relevante.

A água merece atenção, mas sem alarmismo. Do ponto de vista estequiométrico, a eletrólise consome cerca de 9 litros de água por quilo de hidrogênio; o desafio real costuma estar na qualidade da água, no resfriamento, no licenciamento e na disputa local por uso, não em uma suposta inviabilidade hídrica generalizada.

Minha avaliação é direta: Minas tem mais chance de liderar se resistir à tentação do espetáculo. O caminho racional é menos glamouroso e muito mais eficiente: começar por blending, consolidar redes isoladas, aprender com pilotos industriais e só então escalar para módulos DRI-EAF preparados para alto teor de hidrogênio. Se fizer isso com rigor, o estado pode transformar seu “ouro verde” em vantagem industrial real, conectando mineração, siderurgia e energia limpa no mesmo território.

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